Viagem ao Mar das Ostras
A notícia chegou rapidamente à Ilha da Manga Verde. Seu mensageiro não pôde ser identificado. Transmitiu-a ao Capitão Mosquitinho, a sentinela do dia.
– Excelente! Excelente, meu caro! O assunto me interessa muito! Quem trouxe a notícia?
– Não sei, meu Capitão! Não deu para eu ver nada! Consegui, tão-somente, ouvir sua mensagem. Estava muito escuro!
– Não importa! A notícia é boa demais para nós!
Onde o mar bravio? Onde o tesouro? O Capitão Mosquitinho vai buscar o ouro! Ao navio, meu sargento! Ao navio, meu soldado! Que lancem a vela ao vento, quero o ouro conquistado!
A voz do Capitão Mosquitinho soou imponente no refeitório! O Soldado Pernilongo, que cuidava da refeição do chefe, sentiu a desagradável sensação de estar sendo levado por uma brisa marítima muito forte.
Bastou que o Capitão Mosquitinho soltasse seu grito poético de conquista, que ele bem conhecia, para que se sentisse irremediavelmente perdido no tempestuoso Mar das Ostras.
Muito esperto, o Soldado Pernilongo bem sabia que, a qualquer hora, apareceria um trabalho desagradável, mas não tão desagradável quanto se prenunciava aquele.
– Quer dizer, meu Capitão...
– Quer dizer, sim, meu corajoso Soldado Pernilongo! Nós nos lançaremos ao mar! Partiremos amanhã, ao primeiro raio de luz solar. E você, meu bravo, está, desde agora, encarregado de cuidar do embarque dos alimentos que seguirão conosco no Navio Conquistador.
Pouco restava ao pobre Soldado Pernilongo senão cumprir as ordens ditadas por seu Capitão. E foi o que ele fez.
– Certo, meu Capitão! Cumprirei suas ordens. Não permitirei que nenhum de seus bravos homens morra de fome. Conte comigo!
O Capitão olhou para seu fiel soldado.
– É assim que se fala, meu caro! Um bom soldado não teme a luta!
– Que luta, Capitão Mosquitinho?
– Ora, ora, então você não sabe que vamos lutar contra um mar raivoso, o Mar das Ostras!? E que ainda enfrentaremos as suas profundezas, em busca da Arca de Ouro da Borboleta Delta? Pois é isso mesmo! Nada a temer! Nós venceremos as águas bravias e traremos a tão cobiçada relíquia para o nosso quartel!
Antes de se despedir do Soldado Pernilongo, o Capitão Mosquitinho repetiu seus versos de vitória:
Ao navio, meu sargento! Ao navio, meu soldado! Que lancem a vela ao vento, quero o ouro conquistado!
Em seguida, recolheram-se todos com a brusca chegada da noite.
O vento soprava forte. Tão forte que a sentinela tremia da cabeça aos pés na gelada brisa que brotava do mar.
O Soldado Pernilongo não conseguia fechar os olhos. Passou boa parte da noite a contar os perigos da viagem. Ele nem sequer se lembrou de contar carneirinhos!
– O que faço, meu Deus? Como sair desta enrascada? Mostrai-me, Senhor, um caminho que me leve para bem longe das ordens do Capitão Mosquitinho!
O Soldado temia pelo insucesso de uma fuga. Sabia bem dos riscos que correria.
O quartel, fincado numa ilha, vivia cercado de terríveis tubarões que nadavam indóceis, tamanha a fome ali reinante.
Pobre daquele que caísse nas garras dos monstros! Ninguém escaparia de suas terríveis mandíbulas!
Pela manhã, antes mesmo da primeira luz, já o Capitão Mosquitinho corria os aposentos de seus comandados. Deparou com o Soldado Pernilongo de olhos muito acesos. Quis saber de seu fiel soldado o que ele estava fazendo, acordado àquela hora.
– Meu Capitão, eu não consegui pegar no sono!
– O que aconteceu, meu filho?
– Olha, meu Capitão, eu ontem fui ao armazém e pude observar que não temos suprimento para toda a tropa! Os soldados não suportarão a viagem!
– Como! Onde foi parar aquela compra que recentemente fizemos no Porto de Águas Claras?
– Meu chefe esqueceu-se do que fez com aquela grande compra?
As ocupações do Capitão andavam a cansar sua cabeça. Lembrou-se, contudo, do que ocorrera.
– É mesmo, meu caro! Agora eu me lembro! Mandei que atirassem ao mar todos os alimentos, quando do ataque daqueles tubarões famintos. Pensei que aquela fosse a melhor maneira de nos livrarmos de um grande massacre!
– Isso mesmo, meu chefe! Isso mesmo! Sua rápida e inteligente iniciativa salvou toda a tropa!
– Mas, meu caro Soldado Pernilongo, que tal corrermos o risco? Nossos homens estão bem preparados fisicamente. Suportarão, com certeza, o trabalho que deverá durar poucos dias.
– Não acredito, meu Capitão! Nós não sabemos por quanto tempo lá ficaremos. Qualquer dificuldade exigirá, de seus bravos soldados, um esforço muito grande. Esse desgaste físico trará sérios problemas para a tropa!
O Capitão Mosquitinho resolveu pensar mais detalhadamente sobre o assunto. Afastou-se para o seu aposento. Lá, isolado, para mais calmamente pensar, encontraria melhor solução para o caso. Temia, contudo, que alguém mais saísse à procura da Arca de Ouro da Borboleta Delta.
As notícias corriam ligeiras naquelas ilhas. E se o velho Besouro Tonto ou a Aranha Aveludada, seus grandes inimigos, resolvessem ir à cata do tesouro!
Aquele mesmo mensageiro, que não sabemos ainda de quem se trata, o que nos deu a notícia podia, muito bem, ter avisado outras pessoas.
Deveria se arriscar de qualquer maneira. Sabia que não poderia perder aquela oportunidade. Com o sucesso da expedição realizaria seu grande sonho. Queria reconstruir o quartel e comprar armas e munições que melhor garantissem a defesa de sua ilha e a segurança de seus comandados.
Um pouco mais tarde, retornou o Capitão Mosquitinho para falar com o Soldado Pernilongo.
– Olha, meu fiel servidor, faremos antes uma viagem à Ilha dos Marrecos. Vamos estocar nosso armazém de alimentos. Realmente, não podemos correr o risco de viajar sem uma quantidade satisfatória de suprimentos. Não podemos colocar em jogo a vida de nossos valentes soldados. Mande preparar o barco Trovador! Avise o Sargento Vaga-lume que ele seguirá conosco!
– Tudo bem, Capitão Mosquitinho! Tomarei as medidas necessárias para o correto cumprimento de suas ordens. Cuidarei dos detalhes da viagem que faremos à Ilha dos Marrecos. Quando voltarmos das compras, falaremos aos nossos soldados sobre a viagem, ponderou o capitão.
A viagem à Ilha dos Marrecos transcorreu tranquila, sem qualquer problema. Era aquela a grande ilha comercial do continente. Todos podiam contar com a segurança oferecida por seus comerciantes. Mantinham eles barcos de guarda por toda a costa. Evitavam, com isso, que os compradores fossem ameaçados pelos famintos tubarões. E, também, que alguém ali entrasse com outra finalidade que não a de adquirir bens.
O tempo de permanência, na ilha, estaria limitado à realização das compras. Quem desobedecesse a essa determinação seria, sem qualquer oportunidade de defesa, lançado à sanha dos tubarões. Todos os que antes a alcançaram, com outra finalidade, tiveram terrível fim. Era a dura lei daquele lugar.
Já preparado o Navio Conquistador, o Capitão Mosquitinho convocou seus soldados. Ditou-lhes, o capitão, as providências seguintes. Iriam todos, sem exceção, à procura da Arca de Ouro da Borboleta Delta.
Na hora marcada, deveriam estar de pé e bem preparados para a magnífica, mas perigosa, aventura ao Mar das Ostras. Ficou acertado que partiriam ao primeiro sinal de sol.
O Soldado Pernilongo pôs-se a pensar, muito preocupado e com medo da viagem. Sentia, no corpo, o perigo que correria no Mar das Ostras. Pensou aproveitar-se de algum descuido do Capitão Mosquitinho para fugir do quartel e da viagem. Achou que ainda tinha tempo para imaginar um plano de fuga.
Durante alguns minutos, o Soldado Pernilongo buscou um meio de se safar daquela viagem, deixando transparecer, no rosto muito branco e nas mãos um pouco trêmulas, o grande pavor que a todos impunha o Mar das Ostras, sem dúvida um lugar muito perigoso.
Havia registro de que numerosos navios haviam sofrido sérias avarias em suas turbulentas águas, onde justamente teria naufragado a embarcação que conduzia a Borboleta Delta com sua Arca de Ouro. Nenhum plano interessante passava pela cabeça medrosa do Soldado Pernilongo. A fuga estava mesmo muito difícil. Só um grande milagre salvaria quem caísse naquele mar de tantas baleias e tubarões famintos.
– Que diabo! Onde eu vou me enfiar para escapar dessa!
Pensou dizer-se doente. Não seria dessa forma que enganaria o esperto Capitão Mosquitinho. Ele jamais se convenceria da enfermidade do seu atlético Soldado Pernilongo. Seus conhecimentos de medicina, embora precários, permitiam-lhe rápida identificação de qualquer sinal de possível enfermidade.
– Eu preciso pensar melhor!
Sabendo que o Sargento Vaga-lume não se simpatizava muito com o Capitão Mosquitinho, o Soldado Pernilongo resolveu procurá-lo para expor sua intenção de fuga.
Encontraram-se os dois. Ninguém por perto.
– Olá, meu caro Sargento Vaga-lume! Como vai?
– Olá, meu caro Soldado Pernilongo! Tudo bem!? O que faz por aqui? Terminou as arrumações da cozinha? Algum assunto importante a tratar comigo?
– Claro, claro! O assunto é realmente muito importante. O senhor vai gostar de saber. Busco um plano para fugir da grande viagem a que o Capitão Mosquitinho nos vai obrigar.
– Grande viagem!? Que grande viagem é essa, meu caro? Não estou sabendo de nada!
– Vai saber agora, Sargento Vaga-lume! Não esconderei nada do senhor! Sei que o Sargento não se simpatiza muito com o Capitão. E sei que o Sargento também não gostaria de enfrentar o Mar das Ostras, aquele dos tubarões famintos, não é verdade!?
– Que loucura! Quem vai ao Mar das Ostras? Eu não irei de modo nenhum! Nem mesmo amarrado!
– Espere um pouco, Sargento! Permita-me contar-lhe como as coisas deverão acontecer! O Capitão Mosquitinho marcou o nosso embarque para amanhã cedo. Disse que irão todos os soldados, sem exceção. Como eu, também, não desejo ir ao Mar das Ostras, acho que podemos discutir, agora, um plano de fuga, antes que seja ordenado o embarque de toda a tropa. Se entrarmos no Navio Conquistador só sairemos vivos se houver volta, e eu não acredito que alguém escape com vida do Mar das Ostras. Tenho um plano. Pode até não ser o melhor, mas estarei disposto a ouvir o seu, se porventura tiver algum na cabeça. Como a nossa conversa é sigilosa, precisamos conversar em algum lugar onde ninguém possa nos ouvir e saber o que estamos tramando. Devemos ter muito cuidado.
– Mas, meu caro, este lugar é seguro!
– Não é tão seguro, Sargento! O assunto é sério demais para qualquer risco! Nossa pele pode estar em jogo!
– Ó raios! Acho que estou ficando velho! Onde então vamos falar?
Ocorreu ao Soldado Pernilongo a ideia de levar o Sargento Vaga-lume até a cozinha do quartel. Lá ninguém iria. Poderiam conversar livres de qualquer outra presença.
O Sargento Vaga-lume topou a ideia. Marcaram a hora do encontro. Dez minutos depois, lá estavam os dois a falar do plano de fuga. Àquela hora, os demais soldados, certamente, dormiam.
Conversaram, durante alguns minutos. De pé mesmo, para não arrastar qualquer cadeira e fazer barulho.
O plano de fuga do Soldado Pernilongo não foi aprovado pelo Sargento Vaga-lume. Ele não acreditava que desse certo. Expôs, então, o Sargento Vaga-lume o seu plano.
O Soldado Pernilongo, impressionado com a criatividade do Sargento Vaga-lume, acolheu, prontamente, a ideia do companheiro. A essa altura, nenhum dos dois tinha mesmo qualquer outro plano.
– É, meu caro, estou sentindo os dentes dos tubarões mordendo-me o inteiro!
– Não fale assim, Sargento Vaga-lume! Isso me deixa todo arrepiado! Ó céus! Ó céus! O que será de nós!?
O Sargento Vaga-lume pediu que o Soldado Pernilongo cessasse com aquelas exclamações. O que eles precisavam era achar, rapidamente, uma solução para o caso.
– Vamos pensar um pouco mais, meu Soldadinho! Nós encontraremos uma solução! Com certeza nós encontraremos!
– Mas, Sargento Vaga-lume, nós não temos muito tempo! O embarque será pela manhã!
– Vamos pensar, homem! Vamos pensar! Daqui a pouco voltaremos a falar.
– Certo, mas que seja daqui a dez minutos, no máximo, senão estaremos fritos!
– Tudo bem! Tudo bem! Eu vou ficar por aqui mesmo. Vou fazer um cafezinho para nós e levar um outro para o Capitão Mosquitinho em seu aposento.
– Boa ideia, meu caro! Trate bem o homem! Não podemos deixar que ele desconfie do nosso propósito de fuga. Se nos ouvir falando em fuga, com certeza nos castigará sem piedade. E o castigo, para os que tentam fugir de suas obrigações, é extremamente rigoroso – alguns bons dias de pouca alimentação e muito trabalho, o mais pesado trabalho que houver no quartel. Eu, do jeito que ando, não estou podendo comer pouco, nem trabalhar muito. Com tamanho castigo, eu não duro uma semana, meu caro Sargento Vaga-lume!
Vamos fechar nossas bocas! Daqui a pouco nós nos encontraremos na cozinha. E, por certo, já com um plano para a nossa fuga!
– Vou tentar, meu Soldado Pernilongo! Vou tentar! Eu bem que gostaria de achar um jeito de escaparmos dessa terrível viagem ao Mar das Ostras!
O Soldado Pernilongo tratou de fazer o cafezinho. Surpreendeu-se com a inesperada presença, na cozinha, do Capitão Mosquitinho, enquanto ainda preparava o tal café.
– Olá, Soldado Pernilongo! O que você está fazendo por aqui? Alguma coisa especial? Você deveria estar dormindo à esta hora! Amanhã o trabalho será pesado. A viagem exigirá de todos nós um bom estado físico. Pelo visto, vai sair um cafezinho, estou certo!?
– Muito certo, meu Capitão Mosquitinho, certíssimo!
– Ótimo, meu caro! Tomaremos o nosso cafezinho e depois voltaremos para os nossos aposentos.
– Voltaremos, sim, meu Capitão Mosquitinho!
O Capitão Mosquitinho, de larga experiência no comando de sua tropa, percebeu logo a intranquilidade do Soldado Pernilongo.
– Alguma coisa errada, meu caro Soldado Pernilongo? O senhor não está se sentindo bem?
– Estou muito bem, meu Capitão Mosquitinho, muito bem mesmo!
– E como andam os preparativos para a grande aventura?
– Muito bem, meu Capitão Mosquitinho! Muito bem! Bem mesmo! Tudo prontinho para a grande aventura. Será um sucesso! Nós confiamos muito no seu comando e nos corajosos companheiros! Será uma grande aventura! Uma grande aventura, mesmo!
– Isso mesmo! Será uma grande e agradável aventura! Estou certo que nós retornaremos da Ilha da Manga Verde com a tão cobiçada Arca de Ouro da Borboleta Delta. Com essa conquista, nós teremos condições de melhorar o nosso quartel. E, mais ainda, teremos condições de melhor armar nossos homens. A vitória não será unicamente minha, será de todos nós, meu bom Soldado Pernilongo.
– Compreendo, Capitão Mosquitinho! Compreendo, sim!
– Isso, meu valente Soldado Pernilongo! O seu café está realmente delicioso! Acho que você deve agora se recolher, retornar à sua cama e descansar, porque o trabalho de amanhã será bastante cansativo.
O Soldado Pernilongo não sabia qual caminho tomar. Gesticulava muito, deixando transparecer seu estado nervoso. Sua inquietação era tão grande que ele se esqueceu de fazer continência para o Capitão Mosquitinho quando deixou a cozinha.
A visita de seu chefe realmente complicava sua intenção de fuga. Retirou-se para o quarto. Não teve coragem de avisar o Sargento Vaga-lume. Sentia, sobre si, o olhar pesado do seu comandante.
O Capitão Mosquitinho permaneceu na cozinha por mais algum tempo, a complementar seu plano de viagem. Sentiu que alguém se aproximava. Apagou rapidamente as luzes. Esperto, escondeu-se atrás da geladeira.
O Sargento Vaga-lume aproximou-se da porta que fechava a cozinha. Estranhou a luz apagada. Com voz, excessivamente baixa, chamou pelo Soldado Pernilongo.
– Soldado Pernilongo! Onde você está? Eu não sei como andar nesta cozinha sem luz! Acenda, por favor, ainda que um fósforo, para que eu me guie e não faça barulho!
A cozinha não era lugar comum para o Sargento Vaga-lume. Quem melhor conhecia aquele espaço do quartel era o Soldado Pernilongo. Seu trabalho era o de cuidar da alimentação dos companheiros de farda e do seu Capitão Mosquitinho.
Sentindo alguma coisa errada no ar, o Capitão Mosquitinho resolveu imitar a voz do Soldado Pernilongo, para poder dialogar com o Sargento Vaga-lume. E foi o que fez.
– Nós não podemos conversar com a luz acesa, meu Sargento Vaga-lume! Alguém pode desconfiar! Não podemos correr o risco! Mas eu preciso mostrar a você o nosso plano de fuga!
– Não tem como, Soldado Pernilongo! Quando aquele idiota acordar e der pela nossa falta, nós estaremos singrando outros mares.
– Conte-me seu plano, então!
– Ouça com atenção, meu caro Soldado Pernilongo. Não podemos errar! O sucesso da nossa fuga depende unicamente de nós!
E passou a contar os detalhes da fuga.
– Nós fugiremos no barco de borracha do Capitão Mosquitinho. Levaremos grande quantidade de comida para os tubarões famintos. Enquanto eles se distraem com a comida, nós tocamos o barco em direção à Ilha das Flores. Lá teremos a proteção do velho e temido Besouro Tonto. Ele saberá como esconder a gente, se porventura o Capitão Mosquitinho aparecer. Mas, com certeza, ele não aparecerá! Tem verdadeiro pavor das garras do velho Besouro! São inimigos há muitos anos. Ele não permitirá o desembarque de qualquer soldado do Capitão Mosquitinho. Depois, nós partiremos para a Ilha das Aranhas, lá onde o Capitão Mosquitinho não se aventuraria nunca. Quando ouve falar da Aranha Aveludada, ele se arrepia todinho, de tanto medo. E nós sabemos que as aranhas gostam de quem não gosta do Capitão Mosquitinho. E isso nós diremos a elas. E elas entenderão as nossas explicações e os motivos da nossa fuga. Lá, nós passaremos os últimos anos da nossa vida. Muitas diversões esperam por nós naquela ilha maravilhosa, meu caro!
Vejo que você é mesmo muito esperto, Sargento Vaga-lume! Só o Capitão não vê isso, meu caro Soldado! Aquele tapado só pensa em dar ordens. E de nós só exige obediências, não se importando com as consequências. Vamos mostrar a esse cara que somos mais espertos do que ele pensa! Quero morrer de rir daquele baixinho metido a bom de sela!
Nessa hora, exatamente nessa hora, acendeu-se a luz da cozinha. Surpreendeu-se o Sargento Vaga-lume.
– O senhor por aqui, meu Capitão Mosquitinho? Não acredito!
– Por que tamanha surpresa? Não gostou da nossa conversa?
– Eu gostei muito! Vejo que o Sargento Vaga-lume é mesmo muito inteligente, esperto demais. Pena que o senhor não goste tanto de mim! Eu fico muito triste, meu caro, muito triste mesmo! Gostaria que meus soldados fossem meus amigos. Mas, olhe, achei ótimo o seu plano de fuga!
O Sargento Vaga-lume não sabia o que dizer. Com a maior cara de bobo, boquiaberto o tempo todo, olhava assustado para o seu superior!
O Capitão Mosquitinho se divertia com aquela situação toda. Sua figura surgia gigantesca à frente do surpreso e arrasado Sargento Vaga-lume. As garras do Capitão Mosquitinho pareciam alcançar seu pescoço.
– Vejo que o meu Sargento Vaga-lume perdeu a fala! Desse modo não podemos continuar a conversa. Vou parar de falar sozinho para que possamos ir dormir. O Navio Conquistador sairá muito cedo. O senhor, meu Sargento Vaga-lume, precisa descansar mais. É melhor que se recolha ao seu aposento e aproveite algumas horas de sono. O trabalho pesado de amanhã vai exigir muita energia e disposição. E para que saiamos vitoriosos, desta grande empreitada, precisamos de todo o nosso vigor. Um bom sono vai nos dar as forças necessárias. Recolha-se, Sargento Vaga-lume, e tenha tranquila a sua noite!
O Capitão Mosquitinho dirigiu-se ao seu aposento. O Sargento Vaga-lume não conseguiu sair do lugar. Estava petrificado.
O Capitão Mosquitinho, não ouvindo os passos do Sargento Vaga-lume, preocupado retornou à cozinha. Percebendo que o Sargento Vaga-lume não conseguia mover-se, o Capitão Mosquitinho acabou por arrastar o Sargento Vaga-lume até o seu quarto. Em seguida, o Capitão Mosquitinho foi procurar o Soldado Pernilongo. Foi encontrá-lo em sono profundo, esquecido, certamente, do compromisso que assumira.
O Capitão Mosquitinho deixou que ele dormisse sossegado. Buscou a sentinela do dia. Colocou-a a par do plano de fuga dos dois. Ordenou que se aumentasse a guarda do quartel, evitando, com isso, que seus dois comandados fugissem.
Ao primeiro raio de sol, o clarim soou forte pelo quartel inteiro. Rapidamente estavam todos firmemente de pé. Só mesmo o Sargento Vaga-lume não conseguia um melhor equilíbrio. Para manter sua posição de sentido, apoiou-se no soldado vizinho. Tentou caminhar, mas não conseguiu. O pavor continuava estampado em seu rosto. Ele já aceitara o fim de sua sonhada liberdade e a morte de seu formidável plano de fuga.
Os soldados assumiram seus postos. Estavam animados com a viagem, certos do êxito daquela grande aventura. Cansados da monotonia do quartel, aproveitariam para respirar um pouco a brisa marítima. Trariam, acreditavam todos, a Arca de Ouro da Borboleta Delta.
O naufrágio do Barco do Sol, que conduzia a Borboleta Delta, conforme soube o Capitão Mosquitinho, ocorrera há poucos dias. Nenhum de seus tripulantes conseguira sobreviver. A Borboleta Delta não tinha herdeiros. Logo, sua fortuna passaria às mãos de quem conseguisse vencer o bravio Mar das Ostras e recuperar a grande Arca de Ouro, a que guardava as mais preciosas e mais cobiçadas barras de ouro do mundo.
O Capitão Mosquitinho não sabia, mas a notícia do naufrágio, daquela embarcação, já correra pelas demais ilhas. E mais, algumas expedições haviam tentado, sem êxito, a localização da Arca de Ouro. Desistiram, provavelmente afugentadas pela fúria daquelas águas bravias do Mar das Ostras. Nada disso, contudo, assustava o Capitão Mosquitinho, certo que ele estava de que conseguiria colocar as mãos na tão desejada Arca de Ouro.
Sob o seu corajoso comando, já o Navio Conquistador singrava o Mar das Ostras. Animados, os soldados festejavam a grande aventura. Cantavam e se divertiam muito. A bebida estava proibida a bordo. A viagem era de trabalho e todos deveriam estar fisicamente bem para a caça ao tesouro.
O Sargento Vaga-lume também seguia viagem. Fora conduzido ao convés do navio pelo Capitão Mosquitinho. Seu olhar continuava petrificado, não reagia. Parecia, o coitado, um morto em pé. Não fechava a boca, mas também não falava.
Ninguém foi deixado na Ilha da Manga Verde. Afinal, a conquista deveria ser de todos, também dos medrosos Soldado Pernilongo e Sargento Vaga-lume.
– Atenção, pelotão – Sentido!
A voz do Capitão Mosquitinho soou, como sempre, muito autoritária. E todos obedeceram.
– Soldados, meus bravos soldados, atenção, descansem!
O silêncio foi rompido com muita alegria, com enorme animação de todos, ou de quase todos, já que os medrosos também estavam a bordo do Navio Conquistador.
Já em alto-mar, o Capitão Mosquitinho ordenou ao Capelão Joaninha que rezasse uma missa. Pediu que ele intercedesse junto a Deus, para que a viagem transcorresse em total segurança, sem a perda de qualquer de seus homens. Rezaram todos.
Milagre ou não, na hora em que se alimentou da hóstia santa, o Sargento Vaga-lume retomou a normalidade de seus movimentos. Sorriu satisfeito. Conseguira finalmente sair daquele estado de torpor.
Terminada a missa, o Sargento Vaga-lume procurou pelo Capitão Mosquitinho. Queria falar com ele. O Capitão Mosquitinho mandou dizer-lhe que continuaria por mais algumas horas na capela, rezando e pedindo a Deus por ele e por seus soldados.
Quando todos deixaram a igreja, o Sargento Vaga-lume procurou pelo Soldado Pernilongo. Foi encontrá-lo já metido num calção de banho, todo colorido, deliciando-se com o gostoso sol do convés.
– Olá, Soldado Pernilongo!
O Soldado Pernilongo surpreendeu-se com a presença do Sargento Vaga-lume.
– Olá, Sargento Vaga-lume! O senhor por aqui?
– E por que não, meu caro?
O Soldado Pernilongo temia que o Sargento Vaga-lume retomasse a conversa sobre o plano de fuga. E foi, justamente, sobre esse assunto que o Sargento Vaga-lume voltou a falar. O Soldado Pernilongo pediu que esquecessem as conversas que tiveram. Já que estavam a bordo do navio, nada mais poderia ser feito agora.
– Não dará certo, meu caro Sargento Vaga-lume! O Capitão Mosquitinho já sabe de tudo.
– Como você sabe que o Capitão Mosquitinho tem conhecimento do nosso plano de fuga?
O Soldado Pernilongo tremeu dos pés à cabeça com a observação inquiridora do Sargento Vaga-lume, que continuou:
– O Capitão Mosquitinho falou com você sobre a conversa que tivemos?
– Falou sim, contou-me todo o ocorrido. Aconselhou-me a abandonar a ideia de fuga. Lembrou-me que o castigo era severo demais para quem tentasse fugir do quartel. Ele disse, ainda, que precisava de todos os seus comandados. A falta de qualquer um poderia implicar desastre total da missão de resgate da Arca de Ouro.
– Engraçado! Ele não me disse nada, senão para que eu fosse dormir e descansar, pois deveria estar em boas condições físicas para a empreitada que nos esperava.
– E como ele poderia falar, se você estava até então petrificado!? Só agora, neste exato momento, você conseguiu voltar ao normal. Ele iria perder tempo falando muito e você escutando, mas não entendendo nada.
– É, acho que também devo esquecer, definitivamente, o tal plano de fuga! O negócio agora é enfrentar o mar com muita coragem.
– Afinal, o êxito da expedição poderá, muito bem, amenizar o nosso castigo. Eu peço a você, meu caro Soldado Pernilongo, que você leve ao nosso Capitão Mosquitinho minha mensagem. Diga-lhe, em meu nome, que estou muito arrependido do que fiz e estou disposto a colaborar para o bom sucesso da viagem. Ficarei muito agradecido se fizer isso por mim.
E foi o que fez o Soldado Pernilongo, aproveitando-se da presença do Capitão Mosquitinho, na cozinha, para um saboroso cafezinho quente.
O Capitão Mosquitinho sorriu satisfeito. Prometeu que, se vitoriosa a expedição, perdoaria aos dois.
Enquanto isso, a viagem seguia normalmente, sem qualquer incidente. O Navio Conquistador já vencera algumas boas milhas de águas raivosas.
Já em alto-mar, bem próximo do local onde naufragara a embarcação da Borboleta Delta, os soldados começaram a sentir as primeiras dificuldades. Grande tormenta assolava o mar, sacudindo, fortemente, a embarcação comandada pelo Capitão Mosquitinho.
Com muito trabalho, alcançaram o ponto indicado no mapa do Capitão Mosquitinho. Era aquele o local do naufrágio.
– É aqui, com certeza é aqui!
A voz do Capitão Mosquitinho soou forte e maravilhada.
– Que se preparem os homens que descerão comigo! Eu irei à frente de todos!
O Sargento Vaga-lume e o Soldado Pernilongo cuidarão de vigiar os cabos que nos manterão ligados ao navio. Os demais soldados cuidarão das máquinas. Que as âncoras sejam lançadas ao mar!
Todas as ordens do Capitão Mosquitinho foram, prontamente, cumpridas.
O navio, a esta altura, dada a eficiência dos comandados, já estava preso ao fundo do mar. Animaram-se todos os membros da expedição.
O Capitão Mosquitinho atirou-se, sem perda de tempo, às águas do mar bravio, munido do seu excelente equipamento de mergulho e busca. Seus companheiros seguiram-no. Lá embaixo eles se separariam.
Essa era a instrução do Capitão Mosquitinho. Ele seguiria a direção sul e seus comandados seguiriam a direção norte, com o mesmo fim de procurar a embarcação naufragada.
Naquele momento, o vento começou a soprar mais forte. Parecia enfurecido com toda aquela gente por ali. O Mar das Ostras cresceu com suas garras, ameaçando, seriamente, o Navio Conquistador. A inquietação abraçou, rapidamente, o Soldado Pernilongo.
– Estamos fritos! Estamos fritos! Dessa nós não escaparemos! Estamos perdidos! Adeus, vida! Adeus, vida!
O Sargento Vaga-lume mandou que o Soldado Pernilongo se calasse. O negócio era enfrentar a situação. Não havia outra saída, senão contar com a ajuda de Deus e de todos os santos, além da inteligência do Capitão Mosquitinho e das forças, é claro, de seus comandados.
O Sargento Vaga-lume temia pela vida de todos, muito mais pela vida do Capitão Mosquitinho e dos homens que o acompanharam ao fundo do mar.
O cabo, que prendia o Capitão Mosquitinho ao navio, partiu-se com o constante balanço provocado pela enorme força das águas, que pareciam querer afastar dali a grande embarcação. Com o rompimento do cabo, o Capitão Mosquitinho acabou por perder o contato que mantinha com o navio.
Os demais mergulhadores, contudo, continuavam ligados à embarcação. A noite veio rápida, para complicar ainda mais as coisas. Chegou negra e sem avisar.
De repente, um silêncio enorme, uma estranha calmaria. Sim, de repente tudo mudou. A sensação da primeira vitória foi sentida por todos. Afinal, estavam vivos, salvos da enorme fúria do mar.
As orações, as conversas com Deus, os pedidos que foram feitos, foram, certamente, de fundamental importância para aquele enfrentamento vitorioso.
Restava, contudo, a preocupação de todos, com o destino do Capitão Mosquitinho.
Onde estaria ele a essa hora!? Em que ponto do mar!? Próximo ou longe do navio!? Eram perguntas não respondidas.
O primeiro mergulhador veio à tona. Em seguida, vieram os demais. Só aí tomaram conhecimento do que ocorrera com o Capitão Mosquitinho.
Mas, o que fazer, se não tinham instrumentos que lhes permitissem mergulhar à noite. O trabalho de preparação fora todo feito para mergulho se realizasse durante o dia. Finalmente, coisa raríssima, gravíssima a falha cometida pelo Capitão Mosquitinho. E corria ele, justamente ele, o risco de pagar, com sua vida, por esse seu erro.
O Soldado Pernilongo e o Sargento Vaga-lume procuravam fazer alguma coisa. O Soldado Pernilongo chegou a pensar em se atirar no mar. Certamente não voltaria, já que era ele o único tripulante do navio sem condições de suportar a água fria do Mar das Ostras.
Nessa hora, o Sargento Vaga-lume lembrou-se do pequeno, mas permanente, oportuno e útil foco de luz que trazia em seu corpo.
Serviria para alguma coisa?
Foi a pergunta que fez ao Soldado Pernilongo, e que este não soube responder, mas soube entender, perfeitamente, a boa intenção do companheiro!
Bravamente, sem medir a gravidade de sua iniciativa, o Sargento Vaga-lume lançou-se ao mar, com sua pequena luz. Conseguiu, sem maior dificuldade e mais demora, localizar o Capitão Mosquitinho não muito distante do Navio Conquistador.
Surpreendeu-se o Capitão Mosquitinho com a corajosa presença do seu comandado.
– Quanta alegria em revê-lo vivo, meu caro Capitão Mosquitinho!
– A alegria maior é minha, meu valente Sargento Vaga-lume!
Mal sabiam os dois que já haviam sido avistados por um terrível tubarão. Corriam, certamente, sério perigo de vida. A presença do tubarão fora, também, notada pelo Soldado Pernilongo. Tentou ele buscar algum meio de alcançar o foco de luz que vinha do Sargento Vaga-lume. Queria avisá-lo do perigo. Corajosamente, lançou-se também ao mar.
Surpreendeu-se o Sargento Vaga-lume com a presença do Soldado Pernilongo. Mais surpreso ficou o Soldado Pernilongo quando avistou o Capitão Mosquitinho ali tão próximo.
Sem perda de tempo, o Soldado Pernilongo avisou seu comandante do perigo que corriam, agora, os três.
O Soldado Pernilongo teve a brilhante ideia de passar repelente de baleia no corpo.
Restava a ele torcer para que aquele repelente afastasse deles aquele horrendo tubarão. Discutiram como agir naquela situação.
O Capitão Mosquitinho pediu que seu valente Soldado Pernilongo nadasse na direção norte, utilizando-se do seu zumbido para chamar a atenção do feroz animal.
Foi o que fez o Soldado Pernilongo.
Nadaram, para o sul, o Capitão Mosquitinho e o Sargento Vaga-lume.
Um pouco mais, e os dois alcançariam o Navio Conquistador. Estariam, assim, livres daquela tão ameaçadora presença.
Mas, e o Soldado Pernilongo!?
Onde estaria agora!?
A resposta não tardou, veio de pronto.
– Aqui estou, meu comandante!
Abraçaram-se, em seguida.
Festejaram, assim, a felicidade do reencontro e a sobrevivência dos três, eles que já não acreditavam fosse isso possível.
O Capitão Mosquitinho, cheio de razões para tanta curiosidade, quis saber do Soldado Pernilongo como ele conseguira se manter naquelas águas tão frias do Mar das Ostras. E como conseguira escapar daquela tão terrível fera!
O Soldado Pernilongo disse da ideia que tivera. Explicou, detalhadamente, o uso do repelente. Disse ainda que, para não sofrer o impacto do frio, plastificara, por inteiro, todo o seu corpo.
Foi aplaudido pelo Capitão Mosquitinho. Muito mais aplaudido pelo Sargento Vaga-lume, que não sabia ser o seu amigo tão esperto e tão inteligente.
Os demais tripulantes, a esta altura, dormiam, indiferentes aos acontecimentos de fora. Apenas os mergulhadores estavam acordados.
Naquela hora, contudo, alimentavam-se na cozinha do navio. E quando a tripulação soube dos fatos, já o navio se distanciara muito do Mar das Ostras. Navegava em total calmaria, já todo enfeitado para a grande festa que o Capitão Mosquitinho ofereceria aos seus comandados.
A festa durou o resto da viagem até a Ilha da Manga Verde. Ninguém mais se lembrava da planejada conquista do tesouro da Borboleta Delta.
Souberam todos, depois, bem depois, que tudo aquilo não passava de uma lenda que chegara à Ilha da Manga Verde, contada por um tal Martin-Pescador.
Ouvira-a, também, a Aranha Aveludada. Menos aventureira, porém, que o Capitão Mosquitinho, não deu a Aranha Aveludada crédito à história do Martin-Pescador, conhecido contador de lendas e mentiroso contumaz.