← Contos e Poesias

Terreiro de Fazenda em Dia de Festa

Juarez de Oliveira

Seu Januário herdara, do pai, a fazenda. Sua mulher, Dona Belinha, filha de um dos camaradas da fazenda, foi sua companheira desde os tempos de menina, quando viviam soltos pelas terras da Fazenda Pingo D'água. Cresceram juntos e acabaram ficando com as terras deixadas para Seu Januário.

Sozinhos, no casarão da fazenda, os dois procuravam sempre um meio de ocupar o tempo que sobrava do dia de trabalho.

Os afazeres da fazenda terminavam, normalmente, entre cinco e seis horas da tarde.

Alguns poucos camaradas moravam nas terras da fazenda, prestando-lhes serviços. Cuidavam do gado, alimentando-o e ordenhando as vacas leiteiras.

Quando a tarde descia sobre o terreiro, essa grande área de terra batida, em frente à sede principal da propriedade, servia para o passatempo do casal.

Ali, naquele terreiro muito grande, ficavam os dois, sentados nos troncos de algumas árvores velhas e tombadas.

Passavam horas e horas conversando, ora ao pé do fogo de alguns gravetos, quando em tempo de inverno, ora brincando com os animais do terreiro. Era, então, o tempo quente de verão.

Lá estavam com eles, na estação do calor, o cachorro Reco-Reco, a cachorra Minhá, o porco Ronron, a porca Sentinela, o galo Bagacinho, a galinha Bacuré, o cabrito Bé e a cabra Pulguinha. Um casal de cada animal.

Aparecera no terreiro, ninguém sabe de onde veio, e lá ficou, um pintinho que passou a responder pelo nome de Querequé.

Enquanto os bichos ciscavam e fuçavam o quintal, iluminado por luz própria da fazenda, Seu Januário e Dona Belinha ficavam a conversar sobre as coisas da roça.

Certo dia, Dona Belinha teve uma ideia muito interessante, aprovada imediatamente pelo marido. Iriam os dois conversar com os bichos. Todas as noites de verão, lá estavam eles com os bichos, ou próximos ou tendo-os no colo. Falavam muito. Riam à vontade. Até que os bichos começaram a entender as coisas.

Em pouco tempo, a conversa cresceu muito no terreiro. A comunicação estava fácil demais.

Com o correr dos dias, já bem próximo o inverno, Seu Januário notou que a galinha Bacuré andava afastando-se do galo Bagacinho. Não queria nada com ele. Bagacinho começou a ficar muito magro. Parecia muito triste. Não falava com ninguém.

Outra grande ideia de Dona Belinha seria colocada em prática.

Seu Januário contratou a animada banda do sapo Pizé. No primeiro sábado, às duas da tarde, logo após o almoço do casal e a alimentação dos animais, estariam todos no terreiro, cada qual com seu companheiro. Porco com porca. Galo com galinha. Cabrito com cabra. Cachorro com cachorra. Ninguém poderia faltar. Quem não comparecesse à festa e no horário marcado ficaria muitos e muitos dias sem alimentação. Foram todos avisados com muita antecedência.

Querequé não foi convidado por não ter companheira. Não podia ir. A ordem de Seu Januário era muito rigorosa. Companheiro com companheira. Outra ordem a ser obedecida falava das roupas dos convidados. Todos deveriam ir para o terreiro elegantemente vestidos.

Depois da alimentação dos animais, Dona Belinha mandou que eles fossem trocar de roupa e que, dentro de mais alguns minutos, todos, sem exceção, estivessem no terreiro.

O sapo Pizé, com sua banda musical, já batia à porteira da Fazenda Pingo D'água. Trouxe, com ele, o jacaré cantor, o coelho baterista e o papagaio violonista. Explicou a ausência dos demais elementos da banda. Eles teriam ido a uma festa na noite anterior e andaram comendo muito. Alguns ficaram doentes e não puderam vir. Mas os que ali estavam, iriam se esforçar para que a festa fosse muito divertida. Dona Belinha deu-se por satisfeita com a presença dos quatro. Achou que eles dariam conta da animação.

O sino do terreiro bateu duas horas da tarde. E lá estavam, sentados nos velhos troncos das árvores tombadas, Seu Januário e Dona Belinha.

A banda do maestro Pizé já tinha tomado posição para início do espetáculo. A grande festa do terreiro estava quase a começar. Faltavam os bichos, que não deveriam demorar.

Vindo lá do chiqueiro, já era possível ouvir as passadas do casal de porcos. Ronron e Sentinela estavam muito bem vestidos. Tomaram banho naquele dia. Coisa rara.

Sentinela vestia seda pura, um longo que se arrastava pelo terreiro. Trazia no braço uma bolsa de couro de jacaré e nos pés sapatilhas cor-de-rosa. Seu vestido fora feito pelo costureiro de maior fama na floresta, o veadinho Quinze, o Agulha-de-Ouro do sertão.

Ronron vestia terno cinza, muito sóbrio, feito pelo alfaiate Beréu, o Rei da Tesoura.

Bé e Pulguinha não perderam tempo. Foram os primeiros a entrar no terreiro. Ele, vestindo terno cor de abóbora, comprado pronto na loja de Cunhau, a perereca rezadeira.

Pulguinha trajava vestido feito com chita importada do Brejo Doce.

Reco-Reco e Minhá já se achavam no terreiro. Eles moravam no porão da casa-sede da fazenda. Estavam habituados às boas roupas. Andavam sempre muito elegantes.

Reco-Reco, muito posudo, parecia o rei do terreiro. Minhá não deixava por menos. Seu perfume de preferência vinha da selva francesa. Ela não gostava de vestidos longos. Veio de minissaia rosa-choque, bem curtinha, bem acima dos joelhos.

A galinha Bacuré, com algum atraso, apareceu no terreiro. Veio muito bonita, apaixonante. Justificou seu atraso pela maquiagem muito demorada. Seu maquiador tivera problemas de pouso com o seu avião. Chegara, também, com algum atraso.

Seu Januário perguntou-lhe por Bagacinho. Ela disse que não tinha notícia dele. Nem imaginava onde estaria naquela hora.

Seu Januário mandou que ela aguardasse ali, ao lado de Dona Belinha, um pouco mais para entrar no terreiro.

Bacuré obedeceu e pôs-se do lado de Dona Belinha. Deveria cumprir a ordem de Seu Januário. E foi o que fez.

Não demorou muito e surgiu o tão esperado Bagacinho. Cabeça baixa, roupa meio desarrumada no corpo, caminhando devagar, foi para o centro do terreiro.

Foi impedido de lá chegar. Iria ele responder, primeiramente, às perguntas de Seu Januário.

Perguntado sobre o que acontecera, por que se atrasara tanto, Bagacinho, meio sem jeito, falou de alguns compromissos que fora resolver.

Seu Januário não aceitou a explicação de Bagacinho. Pediu que ele falasse a verdade.

Bagacinho explicou que também tivera problemas com a gravata. Não conseguira encontrar a cor preferida e então fora à Cidade das Borboletas buscar uma outra.

Seu Januário ficou bravo com ele. Bagacinho não tinha nenhuma gravata no pescoço.

Bagacinho tentou explicar que se perdera no caminho. Essa mentira Seu Januário não podia aceitar, porque Bagacinho conhecia toda a terra da fazenda.

Dona Belinha indagou de Bacuré o que estava acontecendo com Bagacinho. Bacuré disse que não sabia de nada. Também não quis explicar o seu atraso.

Seu Januário convocou os bichos e falou, com muita seriedade e severidade:

– De agora em diante, aqui nesta festa, aquele que não dançar com o seu par, vai sofrer duro castigo. Vai parar na panela de água quente. Amanhã nós comeremos no almoço ou galinha ou galo, ou porco ou porca, ou cabrito ou cabra.

Reco-Reco e Minhá estavam salvos, pensaram eles. O casal, Seu Januário e Dona Belinha, não deveria gostar de carne de cachorro. Mas veio novo aviso de Seu Januário.

– Se acontecer do cachorro e da cachorra não dançarem juntos, eu vou amarrar os dois na árvore mais distante do terreiro. E lá ficarão trinta dias sem qualquer comida!

Minhá nem ligou. As pernas do Reco-Reco tremeram.

– E toque a banda! – gritou Seu Januário para o maestro Pizé.

A banda, pequena, não fez muito barulho. Tocou algumas músicas românticas do Roberto Carlos. O jacaré cantor estava inspirado. Sua voz saía muito doce, cheia de encanto. O coelho baterista fechava os olhinhos, tão emocionado estava. O papagaio violonista tirava acordes maravilhosos, os mais bonitos da sua carreira.

Ronron pegou na cintura da porca Sentinela e saíram a dançar. O olhar dos dois era de muita alegria e satisfação.

Sentinela, de vez em quando, pisava no seu longo vestido, atrapalhando os passos bonitos de Ronron.

Reco-Reco e Minhá, cheios de amor, dançavam com os olhinhos fechados, coisa muito bonita e terna. Pareciam dois pombinhos. Os pés de Minhá pareciam os pés bonitos da mais ágil bailarina do mundo.

Bagacinho, contudo, continuava encostado no tronco de uma árvore do terreiro. Seu Januário mandou que ele fosse dançar com a galinha Bacuré. Ela não quis. Não acatou a ordem de Seu Januário. Ela desobedeceria a Seu Januário, mas não iria dançar com Bagacinho.

Bagacinho fez cara de coitado para Dona Belinha. A mulher logo o compreendeu. O homem, Seu Januário, não o perdoou. Falou bravo:

– Irão, os dois, amanhã mesmo, para a panela de água quente, se não dançarem juntos!

Bagacinho tentou justificar-se, dizendo que a culpa não era dele. Bacuré nem deu resposta. Não tinha vontade mesmo de dançar com Bagacinho. Seu Januário não podia fazer mais nada. Queria os animais juntos. Se eles não queriam ficar juntos, cabia a ele, Seu Januário, tomar as medidas adequadas.

Dona Belinha estava sem ideia. Nada passava por sua cabecinha.

Enquanto isso, o baile continuava no terreiro, muito animado.

Os olhinhos de Bagacinho corriam pelos olhos dos amiguinhos que dançavam. Ele via que todos estavam muito alegres. Bacuré nem dava bola. Ele nem sequer olhava para o terreiro. Virou as costas para todo mundo.

Já escurecendo, Seu Januário pediu que a banda parasse de tocar, para que fossem todos comer alguma coisa. Completou Seu Januário:

– Todos, menos Bagacinho e Bacuré, que não obedeceram às minhas ordens. Eles não precisam mesmo comer! Afinal, eu não gosto mesmo de frango muito gordo!

Nessa hora, Bacuré ergueu a cabecinha com os olhos acesos. Olhou firme para Dona Belinha e viu nos olhos dela que o castigo viria, se eles não obedecessem às ordens de Seu Januário. Olhou para Seu Januário e viu que ele se mantinha muito sério. Deu uma olhadinha para Bagacinho. Bagacinho nem percebeu. Nessa hora, Bagacinho estava vendo a panela cheia de água quente e ele lá dentro, todo peladinho.

O barulho da alegria continuava no terreiro. Os salgadinhos, bem temperados pela cozinheira Quiri-Quiri, uma velha gata de Dona Belinha, enchiam de água os beiços de Bagacinho e de Bacuré. Os doces, muito bonitos, vieram do Brejo da Cobra, lugar que fazia as melhores guloseimas do sertão.

Ronron lambia os beiços de tanta satisfação.

Bacuré tentou falar alguma coisa para Bagacinho. Não conseguiu. Bagacinho não estava em condições de ouvir o que Bacuré queria dizer.

Bacuré estava arrependida. Queria pedir desculpas a Bagacinho. Por causa de uma coisinha à-toa ela não poderia ter brigado com ele. Afinal, formavam os dois o único par daquela raça naquele quintal. Teriam, certamente, de viver, da melhor maneira possível. Era justamente isso o que não estava acontecendo. Nem se lembraram de Querequé que, sem ninguém ver, comia os restinhos da comida que caíam debaixo da mesa onde ele estava escondido.

Depois da comida, todos satisfeitos, Seu Januário mandou que o maestro Pizé recomeçasse o baile.

A noite chegou cheia de estrelas. Chegou imensamente romântica.

Seu Januário tirou Dona Belinha para dançar como nos velhos tempos. O jacaré cantou, agora bem alimentado, cantou com força total. Cantou muito mais romanticamente. Imitou, com perfeição, o grande Júlio Iglesias.

Quase onze horas da noite, o maestro Pizé mandou que a banda tocasse músicas mais rápidas, porque os bichos estavam com cara de sono.

Foi aí que o jacaré resolveu mostrar que era realmente um grande cantor. Imitou com mais perfeição, ainda, o americano Michael Jackson. A festa ficou animadíssima. Todo mundo muito alegre. Quase duas horas da manhã. O jacaré voltou a cantar música romântica.

O sono começou a tomar conta do terreiro. Todos os bichos procuraram seus ninhos.

Seu Januário, depois de pagar ao maestro Pizé, chamou Dona Belinha para irem dormir, antes que amanhecesse de vez. Eles tinham outros compromissos com o trabalho do dia seguinte. O gado para alimentar, principalmente, já que no domingo os camaradas da fazenda iam para a cidade passear. O casal cuidaria, também, da ordenha das vacas leiteiras. E foram todos dormir. Caíram como pedra nas suas camas. Estavam mesmo muito cansados.

Todos estavam mesmo muito alegres. A exceção ficava por conta de Bagacinho e Bacuré. Bagacinho foi pro seu canto dormir a última noite. Ele sabia que no dia seguinte iria para a panela de Dona Belinha.

Bacuré ficou pelo terreiro. Ficou mais alguns minutos. Depois, resolveu procurar um lugarzinho onde pudesse passar também sua última noite. No caminho, Bacuré encontrou-se com Dona Pinhé, uma corujinha muito engraçada e muito amiga de todos os animais. Dona Pinhé era muito inteligente. Logo ela viu, nos olhinhos de Bacuré, muita tristeza. Procurou consolar a amiga. Perguntou para Bacuré o que estava acontecendo. Bacuré contou tudo. Não guardou nenhum segredo. Ela confiava na amiga Pinhé, uma velha muito bondosa.

Dona Pinhé, a corujinha, entendeu tudo. Coube a ela falar muitas coisas bonitas para Bacuré. Falou para Bacuré viver a vida com mais alegria. Explicou para Bacuré como era a vida dos animais e como eles deveriam viver juntos.

Contou que a vida na Fazenda Pingo D'água era muito bonita e que ela deveria aproveitar mais. Aconselhou, finalmente, Bacuré a procurar Bagacinho e a pedir-lhe desculpas.

Bacuré ouviu, com muita atenção, os conselhos da corujinha.

Dona Pinhé estava muito cansada. Já amanhecia o dia e ela precisava ir para a cama. Ela estava com saudade da coruja, a companheira de ninho. A noite fria abraçava Bacuré com muita força.

O dia veio com luz muito forte, machucando os olhos de todos os animais, todos muito sonolentos ainda.

Seu Januário saiu à procura dos animais. Reco-Reco dormia gostoso no colo de Minhá. Ronron roncava no colo de Sentinela. Bé e Pulguinha corriam pelo campo verde, cheio de ar puro. Eram dois atletas. Precisavam estar em forma. Eles sempre souberam que o ar do campo se apresenta mais puro pelas manhãs.

No ninho de Bagacinho e de Bacuré não havia ninguém. Seu Januário gritou pelos dois. Nenhuma resposta. Montou seu cavalo branco e bonito e saiu campo afora. Correu pelos caminhos da fazenda e nada encontrou. Nenhum sinal dos dois!

Voltou para casa para ordenhar as vacas leiteiras. Depois voltou à caça dos dois fugitivos. Andou ainda bom tempo. Encontrou, por acaso, perdido no campo, o pintinho Querequé. Perguntou ao pintinho o que ele estava fazendo por ali.

Querequé disse que estava escondido de Bagacinho e de Bacuré, que o procuravam. Os dois haviam prometido a ele que lhe dariam um castigo muito sério. E ele, com medo, foi esconder-se longe da casa da fazenda.

Seu Januário, meio desconfiado, perguntou pelos dois fugitivos.

– Não sei não! respondeu Querequé. Eu nem quero saber deles! concluiu.

Seu Januário perguntou o que tinha acontecido entre eles.

– Nada, nada mesmo! garantiu o pintinho.

– Olha, Querequé, eu vou castigar você, se você não falar a verdade, somente a verdade.

A voz firme de Seu Januário assustou o pintinho, que tremeu inteiro. O corpinho de Querequé balançou e ele caiu no colo de Seu Januário.

Nas mãos de Seu Januário ele abriu os olhinhos e confessou ao dono da fazenda a sua culpa pela briga entre Bagacinho e Bacuré.

Explicou que ele gostava de Bacuré e foi falar com ela. Bacuré não quis nada com ele. Falou que ele era muito novinho e precisava crescer muito ainda. Bagacinho soube de tudo e foi falar com Bacuré. Bacuré não gostou do jeito de Bagacinho falar com ela. Achou que Bagacinho estava duvidando dela, achando que ela tinha um caso com Querequé.

– Aí os dois brigaram e não querem mais ficar junto de mim, essa é a verdade, a mais pura verdade. Eu fui o culpado, o senhor percebe? Disse Querequé. Eu fui o culpado!

Perguntou Querequé:

– O senhor me perdoa?

Seu Januário disse para o pintinho que ele teria de pedir desculpas para Bagacinho e para Bacuré e não para ele, Seu Januário. Mas prometeu juntar os três para que Querequé pedisse desculpas, na sua frente, sem o perigo de levar uma coça dos dois, Bacuré e Bagacinho.

Já reunidos, naquele mesmo dia, Querequé pediu desculpas pelo acontecido. Os olhos de Bagacinho queriam comer Querequé vivo. Os olhos de Bacuré não deixavam por menos.

Os dois acabaram por perdoar Querequé. Bacuré e Bagacinho se abraçaram. Querequé pulou de alegria.

Dona Pinhé, que de longe a tudo assistira, muito esperta correu e contratou o maestro Pizé com sua banda para animar outra festa.

Num piscar de olhos, a banda, agora completa, entrou no terreiro ao som de uma valsa gostosa. Bagacinho tirou Bacuré para dançar. Os outros bichos, conforme estavam, foram se aproximando e começaram também a dançar.

Naquela noite ninguém dançou tanto quanto Bacuré e Bagacinho. A orquestra já tinha ido embora e os dois continuavam dançando ao som do amor perfeito. Toda a bicharada já dormia.

Querequé, feliz pela reconciliação dos amigos, ficou para ver o final da festa. Não demorou muito e ele caiu de sono ali no terreiro, onde dormiu a noite inteira.

Seu Januário e Dona Belinha, que tinham ido dormir depois da reconciliação dos dois, não assistiram à festa. Estavam cansados. Mas sabiam que os dois, Bacuré e Bagacinho, estavam cheios de amor um pelo outro. Seu Januário e Dona Belinha também dormiram felizes naquela noite.

Dona Pinhé sumiu do terreiro. Foi para outras bandas, outros lugares. Dona Pinhé, a corujinha amiga de todos, foi muito bacana com a bicharada. Ela sempre foi assim. Pensava sempre nos seus amiguinhos. Por isso, durante o dia ela dorme, enquanto todos trabalham e se divertem.

Durante a noite, ela trabalha, ficando acordada nos troncos de madeira e nos cupins, sempre vigiando os amiguinhos, para que nada de mal lhes aconteça. Bacuré e Bagacinho eram os mais felizes do terreiro.

A partir de então, todas as noites, antes de deitarem, os bichinhos do mato rezam para que a sua amiguinha, Dona Pinhé, conselheira de todos, tenha vida longa e bonita, cheia de paz, carinho e muito amor.